Mesmo sendo uma doença amplamente prevenível, o câncer de colo do útero segue com alta incidência na Região Norte do Brasil. De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), é o segundo tipo de câncer mais incidente entre as mulheres da região, com taxa estimada de 20,48 casos a cada 100 mil mulheres, ficando atrás apenas do câncer de mama. O índice também é elevado no Nordeste do País, com 17,59 casos por 100 mil (Inca, 2022).
A realidade regional evidencia desigualdades no acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce. Segundo a ginecologista Ellen Ribeiro, coordenadora do Setor de Ginecologia do Hospital Ophir Loyola (HOL), diversos fatores contribuem para esse cenário.
“Mesmo com os avanços tecnológicos e o maior acesso à informação, na Região Norte ainda observamos dificuldades no acesso aos serviços de saúde, especialmente à Atenção Primária, onde são realizados o exame preventivo e o acompanhamento regular. Soma-se a isso a menor cobertura do exame Papanicolau, o diagnóstico frequentemente tardio e desigualdades socioeconômicas importantes”, explica a especialista.
A médica destaca ainda que a infecção persistente pelo HPV (Papilomavírus Humano) de alto risco, principal causa do câncer de colo do útero, continua sendo um problema relevante no Norte, associada à baixa cobertura vacinal e às falhas na educação em saúde.
Prevenção: principal aliada - O exame Papanicolau é apontado como uma das principais ferramentas de prevenção da doença. Simples, rápido e de baixo custo, ele permite identificar alterações antes que evoluam para um câncer invasivo.
“O Papanicolau é fundamental porque possibilita detectar lesões precursoras ainda em fases iniciais. Quando o exame é realizado de forma regular há uma redução significativa da incidência e da mortalidade por esse tipo de câncer. Além disso, o tratamento nessas fases costuma ser menos agressivo e com altas taxas de cura”, reforça Ellen Ribeiro.
No entanto, o medo, o preconceito e a desinformação ainda afastam muitas mulheres do cuidado preventivo. Segundo a médica, “o receio do diagnóstico, o constrangimento em realizar o exame ginecológico e mitos culturais fazem com que muitas mulheres adiem a busca por atendimento. Ainda existe a ideia de que o câncer é sempre uma sentença definitiva, o que não é verdade quando há diagnóstico precoce”.
Vivência de quem enfrenta a doença - Em tratamento no Hospital Ophir Loyola, Ana Maria Pereira, 65 anos, ressalta a importância da prevenção. Ela enfrenta o câncer de colo do útero há mais de uma década, com recidivas ao longo dos anos. “Descobri o câncer em 2010 e fiz todo o tratamento. Em 2019, a doença voltou, desta vez na vulva. Em 2023, apareceu novamente, também na vulva. Agora, em 2026, precisei passar por outra cirurgia para retirar parte de alguns órgãos. É uma luta que atravessa anos; mais uma batalha que sigo enfrentando”, relata Ana Maria.
Antes do diagnóstico, ela fazia o acompanhamento ginecológico, mas de forma irregular. “Eu fazia acompanhamento, mas não era frequente, era esporádico. Hoje, eu entendo o quanto esse cuidado desde cedo faz diferença”, acrescenta.
A paciente também deixa um alerta para outras mulheres, contanto que, “aqui no Hospital, eu vejo mulheres cada vez mais jovens com câncer. A mensagem que eu deixo é para procurar atendimento o mais rápido possível, fazer o exame preventivo e cuidar da saúde. Isso é muito importante”.
Atendimento - Referência em Oncologia na Região Norte, o Hospital Ophir Loyola acompanha atualmente cerca de 1.340 pacientes em tratamento contra o câncer de colo do útero, recebendo mulheres de diversos municípios do Pará.
Para Ellen Ribeiro, campanhas como o "Janeiro Verde" são fundamentais para reforçar a importância da prevenção. “O câncer de colo do útero é altamente prevenível e curável quando diagnosticado precocemente. A principal mensagem é: não espere os sintomas aparecerem, pois eles costumam surgir em fases mais avançadas. Procure a unidade de saúde, realize o exame preventivo regularmente e leve suas crianças para vacinar contra o HPV”, enfatizou.
Estratégias - Campanhas como o "Janeiro Verde" reforçam a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acesso à informação como estratégias fundamentais no enfrentamento ao câncer de colo do útero. Durante o mês, a mobilização busca conscientizar mulheres, e famílias, sobre a necessidade do cuidado contínuo com a saúde ginecológica, especialmente em regiões onde a doença ainda apresenta alta incidência.
Gestores do Hospital Ophir Loyola destacam que ações educativas e campanhas de conscientização fazem parte do compromisso permanente da instituição com a promoção da saúde, a prevenção de doenças e o fortalecimento do cuidado oncológico.
Texto: Vinícius Campos, estagiário - Ascom/HOL
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